A Criação não correu bem na primeira vez. Essa é uma das afirmações mais ousadas do Arizal (Rabi Yitzchak Luria, 1534-1572), e responde a uma pergunta que toda pessoa ponderada acaba fazendo: se o mundo veio de uma bondade perfeita, por que ele é tão quebrado? A sua resposta é Shevirat HaKelim (a quebra dos recipientes), e ela muda a maneira como entendemos tanto o dano no mundo quanto o trabalho que nos é dado.
A ideia começa com os Sábios. Bereshit Rabá 3:7 registra o ensinamento de que o Santo, Bendito Seja, “criou mundos e os destruiu”. O Zohar liga isso a um verso que parece deslocado na narrativa da Torá: a lista dos reis que reinaram em Edom “antes que reinasse rei sobre os filhos de Israel” (Bereshit 36:31-39). Cada rei da lista reina e depois morre. Os cabalistas os leem como o relato de estruturas anteriores que não puderam se sustentar.
O Arizal deu ao relato sua forma completa. Depois do tzimtzum (a contração Divina, veja nosso artigo sobre Tzimtzum), a luz entrou no espaço vazio e tomou forma no que ele chama de Olam HaTohu (o Mundo do Caos). A luz precisa de um keli (recipiente) para recebê-la, e cada uma das sefirot (atributos Divinos) tinha o seu recipiente. A luz era intensa demais para os recipientes das sefirot inferiores. Eles se quebraram (Etz Chaim, Sha’ar Shevirat HaKelim).
Quando os recipientes se quebraram, duas coisas aconteceram. Os fragmentos dos recipientes desceram e se tornaram a raiz das klipot (cascas), o domínio onde a luz Divina fica oculta e onde o mal se firma. E faíscas da própria luz, as nitzotzot, caíram com eles e ficaram presas entre os cacos.
Esta é a explicação do Arizal para a mistura que vemos por toda parte. O bem e o mal estão entrelaçados porque a luz caiu no lugar das cascas. Nada no mundo está inteiramente vazio de luz, e nada nele está intocado pela queda.
Os cabalistas não tratam a quebra como um acidente, pois nada na vontade Divina é acidental. Várias explicações aparecem na tradição, e todas concordam num ponto. Um mundo acabado e impecável não deixaria nada para a pessoa fazer. Ao dispor que os recipientes originais não pudessem sustentar a luz, Hashem fez um mundo que precisa de reparo e fez dos seres humanos aqueles que o reparam. Receber uma dádiva pela qual não se trabalhou traz uma espécie de vergonha, que os cabalistas chamam de nahama dekisufa (o pão da vergonha). O mundo quebrado é o modo de a pessoa merecer o que recebe.
Vale também dizer o que o relato não significa. Hashem não muda, e nenhum plano Divino fracassa. Os cabalistas entenderam essas descrições como linguagem para a estrutura do mundo, e essa linguagem deve ser tratada com cuidado.
O que veio depois da quebra não foi um retorno ao início. As luzes se reorganizaram no Olam HaTikun (o Mundo da Reparação), dispostas em partzufim (configurações), que são mais fortes porque funcionam como relações e não como pontos isolados. Os recipientes do mundo da reparação são construídos para sustentar a luz.
Mas as faíscas ainda estão dispersas. O Arizal ensinou que cada mitzvá (mandamento) eleva algumas delas de volta, e que a vida comum da pessoa, incluindo comer, trabalhar e falar, contém faíscas que aguardam que um judeu as trate com santidade. Este é o sentido do trabalho de birurim (separar, extrair o bem do que o esconde). O mundo está cheio de fragmentos, e eles pedem para ser devolvidos.
Os recipientes se quebraram porque a luz era grande, e os pedaços ainda a carregam. É por isso que o Arizal tratava o mundo quebrado como o lugar onde o trabalho é feito.
O que veio depois da quebra é descrito no artigo sobre os Partzufim (em inglês), o trabalho de reparação em Tikkun Olam (em inglês), e as cascas que se formaram a partir dos fragmentos em Klipot e Nogah.
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